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Roda de Conversa

Educação Popular em tempos de grande desânimo na vida política da nação

Os governos federais comandados pelo Partido dos Trabalhadores, que se elegeram por meio de um discurso de solidariedade social e da proposta de aprofundamento da democracia e da justiça social, se viram fortemente atingidos por graves e consistentes denúncias de corrupção. Com isso, houve uma grande perda de legitimidade no imaginário popular das propostas políticas centradas no enfrentamento da desigualdade e da pobreza, como se fossem estratégias discursivas para se conseguir apoio para se manter no poder e apropriar indevidamente da riqueza nacional. Grupos políticos de direita, rancorosos com a ascensão social de muitos pobres, causando pequenas perdas, nos últimos anos, de sua distinção como elite diferenciada, ganharam espaço para atacar amplamente políticas sociais de equidade. Paulo Freire passou a ser alvo de ataques, que antes se envergonhavam de se tornar públicos. Houve um crescimento da desconfiança, no meio da classe média, em relação a práticas e movimentos orientados pela Educação Popular

O grupo mais corrupto, que antes compunha a base de sustentação política dos governos do PT, assumiu o governo federal. Denúncias ainda mais graves de corrupção começam a ser reveladas a respeito desse grupo comandado por Michel Temer. Para se sustentar politicamente, esse grupo passa a utilizar de práticas escancaradas de compra de apoio e silenciamento de oposições. Iniciativas para colocar um fim no crime organizado, com tantos detalhes escabrosos revelados, instalado no governo federal foram sucessivamente derrotadas. Muitas forças políticas, que se agitaram bravamente contra os desmandos e corrupções dos governos do PT, se silenciaram, mostrando o caráter seletivo e ideológico de sua indignação. O clima de desânimo se expandiu em amplos setores da população. Conquistas concretas nas políticas sociais dos últimos anos começaram a ser desgastadas. A elite tradicional sorri.

A Educação Popular que vinha se expandindo na gestão do SUS, perdeu quase todo seu espaço no Ministério da Saúde. Financiamentos para novos projetos acabaram. O movimento de educadores populares precisou de voltar à sua mais antiga tradição de luta: fortalecer-se como articulação e organização autônoma, buscando formas independentes de ação política. Quem não conhecia ainda esse caminho de ação política sem apoio de instituições estatais e sofrendo repetidos ataques políticos, passou a achar que era o fim da esperança. Mas não é.

Eventos da saúde coletiva e do movimento de saúde comunitária ocorridos em 2017, agora sem apoios financeiros do governo federal, ajudam expressar bem os atuais movimentos da sociedade civil brasileira. Estudantes e jovens profissionais estão cada vez mais presentes e animados, instigados pelos desafios trazidos pelas perdas políticas impostas pela elite tradicional. A forte e animada presença da juventude nesses congressos sinaliza a força política da utopia sanitária nos dias de hoje. A programação desses eventos voltaram a priorizar os projetos mais amplos de reconstrução da nação em direção à democracia, justiça e cidadania plena. Se a Educação Popular perdeu apoios institucionais, ela agora ganhou valorização no Movimento Sanitário, antes muito ocupado com preocupações sobre detalhes técnicos de gestão do SUS e sobre refinamentos teóricos dos temas em debate. A discussão da utopia que anima o Movimento Sanitário ganhou importância.  Os temas debatidos ganharam autonomia em relação ao Ministério da Saúde que antes financiava e controlava parte significativa das programações dos congressos. Isso aconteceu, algumas vezes, até nas nossas Tendas Paulo Freire.

A luta continua. Mas precisa continuar com novos aprendizados. Assistimos ao desmantelo de governos progressistas que deixaram de buscar sustentação nos movimentos sociais e nas classes populares, por se confiarem na compra de apoios por meio de recursos obtidos através acordos corruptos com a elite. Ficamos estarrecidos por importantes líderes de esquerda foram seduzidos pelos confortos e bens da elite econômica. Aprendemos como muitas lideranças de movimentos sociais se deixam seduzir por acesso diferenciado a financiamentos para projetos de seus grupos, deixando de lado sua coragem crítica diante das contradições da gestão institucional. Muitos ainda se recusam a reconhecer os graves erros cometidos, como se isso significasse apenas dar legitimidade aos grupos de direita rancorosa que lutam pela recomposição dos antigos privilégios. Não! Reconhecer erros e analisar estratégias erradas é a única forma de caminhar duradouramente em direção a uma sociedade mais justa, democrática e amorosa. É tempo de renovação.

Está chegando o importante ano eleitoral de 2018. O futuro está em aberto e depende de nosso trabalho. Mas a batalha eleitoral não é a única. Precisamos de nos rever. E aprender a trabalhar junto com o Estado sem perder nossa autonomia, como aconteceu muitas vezes nos últimos anos.

Antes, na época da ditadura militar, a Educação Popular em saúde era um movimento social de lideranças de organizações populares e de profissionais em saúde que atuavam principalmente fora do aparelho estatal. Com o processo de democratização a partir do final da década de 1980, a educação popular em saúde passou a ser também um movimento social de trabalhadores do SUS, tentando modificar, por dentro do Estado brasileiro, os rumos das políticas de saúde.  Dentro ou fora do Estado, continua sendo, no entanto, um movimento minoritário e, muitas vezes, perseguido. Propõe um novo jeito de fazer saúde. Mas essa mudança é muito profunda e radical. Uma coisa é ela acontecer em práticas pessoais e em pequenos setores institucionais. Para ela se generalizar na sociedade, necessita de mudar currículos, reorientação orçamentária, novas legislações, sistematização teórica e divulgação dos seus caminhos, criação de equipes de funcionários identificadas e nova cultura sanitária. Enfim, exige mudanças estruturais do aparelho do Estado e na mentalidade da população como um todo. É um processo complexo e demorado que depende da dinâmica cultural e política nacional e internacional que não é determinada apenas pela militância.

O processo de democratização e de conquista de direitos tem acontecido historicamente em ciclos que oscilam. Talvez a maior frustração e maior desânimo estejam acontecendo com os militantes que tiveram a ilusão de que a posse de alguns cargos de poder estatal fosse suficiente para fazer acontecer mudanças assim tão profundas. Mas, continuamos a ser um movimento social minoritário, inclusive dentro do Movimento Sanitário que tem a tradição de buscar transformações a partir de inovadoras propostas da sua vanguarda, com participação apenas periférica das classes populares em sua construção.  Movimentos avançam e perdem. Mas persistem. Choram mas se recompõem. Aprendem e seguem. E isso tem uma poesia.

Participo do Movimento Sanitário, como movimento de Educação Popular, há 43 anos. Desde quando era estudante em 1974. Antes, éramos em muito menor número. Muitas vezes, vivíamos acuados. Na verdade, fico perplexo com a forma como um movimento tão minoritário e perseguido gerou mudanças tão amplas na sociedade brasileira. Uma análise política fria, naquela época, não poderia vislumbrar tantas mudanças conseguidas. Mas utopia e organização são fatos políticos concretos e significativos. E essa utopia está ainda mais espalhada hoje. Temos muito mais grupos organizados lutando por ela. Estamos muito mais abastecidos teoricamente. E temos um passado que nos permite muitos aprendizados.

Fazemos parte de um movimento muito mais amplo de pessoas e grupos indignados com a desigualdade, a opressão e a pobreza e que dedicam boa parte de suas energias vitais para superá-las. É como o cientista político Norberto Bobbio caracterizava o ser esquerda. Nesse momento de grandes perdas políticas, precisamos nos manter unidos. Mas essa união não deve calar nossa autocrítica interna. A esquerda brasileira é diversa, adotando diferentes estratégias e éticas. Muitas das estratégias adotadas contribuíram para a grande derrota que assistimos nos últimos 4 anos. Precisamos lutar juntos, mas também distinguir caminhos e atitudes de diferentes grupos da esquerda. Como a perspectiva de esquerda orientada pela educação popular se distingue e contrapõe a muitas posturas de outros grupos de esquerda? Essas diferenças sempre existiram e geraram tensionamentos não claramente debatidos. Estamos no momento de priorizar esse debate. Distinguir para não repetir os mesmos erros.

Eymard Mourão Vasconcelos, atual coordenador nacional da Rede de Educação Popular e Saúde.

Este texto foi originalmente publicado no Boletim Nós da Rede número 10, de dezembro de 2017.

 

 

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